Em casos muito específicos de compactação gástrica, veterinários utilizam refrigerantes à base de cola como ferramenta auxiliar no tratamento hospitalar. O procedimento, porém, é de alto risco e jamais deve ser tentado em casa.
Parece improvável, mas é verdade: em situações bem específicas, a Coca-Cola (ou outros refrigerantes à base de cola) já foi utilizada por médicos veterinários como parte do protocolo de tratamento de compactações no estômago de cavalos.
O uso não é para qualquer tipo de cólica. Ele está indicado apenas em casos de fitobezoar gástrico — uma massa compacta e dura formada por fibras vegetais, restos de alimentos e material fibroso que se acumula no estômago e impede o esvaziamento normal.
Por que a Coca-Cola ajuda nesses casos?
A bebida possui características que favorecem a dissolução desse tipo de massa:
- pH ácido (próximo de 2,6), semelhante ao ambiente do estômago;
- Presença de ácido fosfórico e ácido carbônico, que ajudam a degradar as fibras compactadas;
- Liberação de gás carbônico (CO₂), que contribui para fragmentar mecanicamente a massa endurecida.
Estudos na medicina veterinária equina mostram que, quando associada a outros tratamentos, a administração controlada de cola pode aumentar as chances de resolução em determinados tipos de compactação gástrica.
O perigo de tentar em casa
Apesar da curiosidade que o assunto desperta, especialistas são unânimes: reproduzir esse tratamento por conta própria pode matar o animal.
Os cavalos têm uma particularidade anatômica importante: eles quase não conseguem vomitar nem arrotar. Qualquer acúmulo excessivo de gás no estômago pode causar distensão rápida e levar à ruptura gástrica, uma emergência quase sempre fatal.
Por isso, quando o tratamento é feito corretamente, ele ocorre em ambiente hospitalar, com administração por sonda nasogástrica (mantida aberta por horas para permitir a saída dos gases) e monitoramento constante dos sinais vitais.
Como é feito o tratamento correto
O protocolo geralmente inclui:
- Confirmação do fitobezoar por gastroscopia (exame fundamental);
- Fluidoterapia intensiva;
- Controle de dor;
- Monitoramento do trânsito gastrointestinal;
- Acompanhamento hospitalar durante todo o processo.
A Coca-Cola nunca é usada sozinha. Ela faz parte de um conjunto de medidas terapêuticas.
Lição importante para criadores
Casos de cólica continuam sendo uma das principais emergências em equinos no Brasil. Muitas vezes são causados por manejo inadequado, como:
- Baixa ingestão de água;
- Mudanças bruscas na dieta;
- Excesso de concentrado;
- Forragem de baixa qualidade;
- Problemas dentários.
O episódio da Coca-Cola reforça uma mensagem clara: nem todo tratamento que parece simples pode ser reproduzido fora do ambiente clínico. O que funciona em hospital com diagnóstico preciso e monitoramento pode ser extremamente perigoso quando feito de forma improvisada.
Na medicina veterinária equina moderna, até soluções inusitadas como essa seguem protocolos rigorosos. O refrigerante pode, sim, fazer parte do tratamento — mas somente em casos muito específicos e sempre sob supervisão veterinária.
A verdadeira prevenção continua sendo o bom manejo diário dentro da propriedade.

